Nave Voyager 2 alcança o espaço interestelar mas continua a enviar dados à Terra

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Lançada em 1977, nave junta-se à ”irmã” e alcança o espaço interestelar. Ela cruzou a fronteira da heliosfera há um ano, segundo medições, e começou a enviar os primeiros dados, que já questionam conhecimentos sobre essa região do Cosmos.

 

Há 42 anos, a nave espacial Voyager 2 partia do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, com a missão de explorar o Sistema Solar. Pouco mais de um mês antes, em agosto, a “irmã gêmea”, Voyager 1, já havia deixado a Terra. Nessas quatro décadas, ambas colecionaram carimbos planetários no passaporte, com visitas a Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Mas, para a surpresa dos astrofísicos envolvidos no projeto da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), elas não deram sinal de aposentadoria.

Em 2011, a Voyager 1 tornou-se o primeiro objeto artificial a ultrapassar a heliosfera — a grande bolha de partículas carregadas que o Sol sopra ao seu redor — e chegar ao espaço interestelar (o espaço entre as estrelas). Agora, uma série de cinco artigos publicados na revista Nature Astronomy revela que, em 5 de novembro de 2018, a Voyager 2 alcançou o mesmo ponto. Os estudos trazem novas informações que desafiam os conhecimentos prévios enviados à Nasa pela primeira nave.

Tanto a heliosfera quanto o espaço interestelar, no qual a primeira “navega”, são preenchidos com plasma, um gás que teve alguns de seus átomos despojados dos elétrons. Dentro da heliosfera, o plasma é quente e esparso; já no espaço interestelar, é mais frio e denso. Esse último também contém raios cósmicos — partículas aceleradas por estrelas que explodiram — que poderiam ser prejudiciais à Terra. A Voyager 1 descobriu que a heliosfera protege os planetas do Sistema Solar de mais de 70% dessa radiação.

Quando a Voyager 2 saiu da heliosfera, no ano passado, os cientistas anunciaram que os dois detectores de partículas energéticas da Nasa perceberam mudanças significativas no ambiente: a taxa de partículas heliosféricas detectadas pelos instrumentos despencou, enquanto que a de raios cósmicos (que, normalmente, têm energia maior) aumentou bastante e permaneceu alta. Essas alterações significaram que a sonda havia entrado em uma nova região espacial. Isso aconteceu há exatamente um ano.

Simetria

Até agora, os dados obtidos pela Voyager 2 têm surpreendido os cientistas. A começar pela sintonia — que não deveria existir — na chegada de ambas as naves. Em uma coletiva de imprensa por telefone, Stamatios Krimigis, o principal autor de um dos artigos, conta que a segunda sonda passou pela heliopausa, a fronteira entre a heliosfera e o espaço interestelar, quando estava a 119 unidades astronômicas do Sol (uma UA é a distância média da Terra ao Sol, cerca de 150 milhões de quilômetros). A Voyager 1 fez a travessia praticamente à mesma distância: 121,6 UA.

“Essa consistência é muito estranha, no sentido de que uma (a 2) ocorreu no mínimo solar, quando a atividade do Sol está em seu mínimo, e a outra (a 1) durante o máximo solar”, afirmou Krimigis, pesquisador da Universidade de Johns Hopkins, referindo-se ao ciclo de atividade de 11 anos da estrela. “Isso implica que a heliosfera é simétrica, ao menos nos dois pontos onde as Voyager atravessaram”, disse Bill Kurth, coautor de um dos estudos e pesquisador da Universidade Iowa. “Significa que esses dois pontos na superfície estão quase na mesma distância.”

Além disso, a simetria fornece importantes informações sobre a estrutura da heliosfera, que alguns modelos dizem ser esférica, enquanto outros sustentam ser como uma biruta, com um longo rabo flutuando para trás, à medida que o Sistema Solar se move pela galáxia a velocidades quase supersônicas. Para Don Gurnett, pesquisador de Iowa e autor correspondente de um dos estudos, os dados sugerem que ela é mais arredondada. Os dados da Voyager 2 também dão pistas sobre a espessura da heliosheath — a região externa da heliosfera — e o ponto onde o vento solar e o vento do espaço interestelar estão em mesma quantidade, considerado a porta de saída da bolha solar.

Os autores destacaram que as diferenças de informações coletadas pela Voyager 1 e a 2 se devem ao fato do nível de atividade solar não ser estático. Ed Stone, do Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena, destacou que a heliosfera é dinâmica. “Ela está inspirando e expirando”, afirmou, na coletiva de imprensa. De acordo com ele, além do ciclo de contração e expansão em larga escala, os dados da Voyager 2 mostram que existem perturbações mais curtas na heliosfera, causadas por ejeção de massa coronal — poderosas explosões que “cospem” grandes quantidades de plasma solar no espaço. “É uma interação muito complicada, que ainda estamos estudando”, afirmou.

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